Marília Mendonça: as polêmicas podem superar o legado musical da artista?

Polêmicas sobre a herança milionária e lançamentos musicais póstumos poderiam enfraquecer o legado deixado por Marília Mendonça?

Não é de hoje que esta colunista ressalta as qualidades de Marília Mendonça enquanto artista, enaltecendo a baita cantora e compositora que ela foi.  Já falamos por aqui sobre suas melhores canções e parcerias e quem acompanha a coluna sabe que eu não poupei elogios os projeto Patroas 2, lançado em 2021. Após quase três meses da morte da cantora, em um trágico acidente de avião, porém, nesses últimos dias, vi o nome de Marília envolvido em algumas polêmicas que me fizeram, mais uma vez, refletir um pouco.

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Sigo acreditando que o legado deixado por Marília Mendonça é imenso, e reafirmo que transcende a música, pois passa por questões intimamente relacionadas a comportamento, liberdade, combate ao machismo e o estímulo ao empoderamento feminino. Marília foi uma gigante da música, e igualmente imensa atrás do violão e do microfone, quando as luzes se apagavam.

Nos últimos dias, porém, tem me incomodado ver o nome de Marília Mendonça envolto em polêmicas que nada têm a ver com a qualidade do extenso trabalho que ela deixou. Achei de extrema civilidade e bom senso a postura de Murilo Huff, ao compartilhar a guarda do filho Léo com a mãe de Marília, dona Ruth e, na sequência, abrir mão de qualquer direito que ele pudesse ter sobre o patrimônio deixado pela Rainha da Sofrência. Até aí, tudo fluindo muito bem.

Só que veio a tal polêmica com Naiara Azevedo e o lançamento da música que as duas sertanejas gravaram juntas. Certamente nesse angu tem caroço que a gente não conhece, mas analisando friamente sob a ótica de quem está de fora, como eu, me parece que a régua para medir se os lançamentos musicais póstumos devem ocorrer ou não deveria ser a mesma pra todos os artistas. Quem gravou com Marília antes de ela falecer e tinha com ela esse combinado pode lançar a música sem maiores complicações. Ponto.

Por alguma razão, não foi assim quando Naiara Azevedo anunciou ao entrar no BBB 22 que lançaria a canção “50 por cento” e você deve ter acompanhado aqui no Movimento Country o desenrolar de toda essa treta imensa envolvendo a família de Marília Mendonça, em especial seu irmão, João Gustavo, e a equipe de Naiara Azevedo. A gravadora Som Livre fez a egípcia e a coisa toda rendeu bem mais além do que deveria. Gostaria muito, mas muito mesmo que nada disso tenha a ver com jogada de marketing, de nenhuma das partes envolvidas.

De qualquer forma, parece que a canção vai sair mesmo e o final da treta será feliz. Alguém duvida que todo mundo que curte o trabalho de Marília Mendonça e as fofocas vai correr pra assistir ao videoclipe e ouvir a música nas plataformas digitais assim que sair? Mesmo que seja ruim, alcançará milhões de streamings. Se for boa, quem sabe consiga se sobrepôr à treta sobre seu lançamento, mas entrará para os anais do sertanejo como a música póstuma que quase não existiu. Marília merecia mais.

Esta semana vi outro tanto de gente discutindo na internet sobre o valor bruto e obsceno da fortuna deixada por Marília Mendonça. Muito se falou em impressionantes R$ 500 milhões, mas há quem diga que é bem menos. Para uma cantora que apareceu para o grande público apenas 6 anos antes de falecer, lá com “Alô, Porteiro“, de 2015, e nunca mais viu sua popularidade cair, qualquer valor na casa das centenas de milhões é muito expressivo.

Acho muito natural que as pessoas se interessem pela vida pessoal dos famosos, pelas fofocas de bastidores. Se isso ocorre com artistas vivos e de menor relevância, por que seria diferente com ela? Também me parece inevitável que ainda falemos de Marília com a mesma paixão e intensidade, mesmo meses após sua partida. Ela era a queridinha do Brasil, a cantora mais ouvida do país, uma das artistas mais ouvidas do mundo.

Todavia, acho que quaisquer polêmicas envolvendo o nome de Marília Mendonça não devem jamais macular o seu legado artístico, especialmente porque estamos falando de alguém que era até bem discreta com sua vida pessoal e, sobretudo, não está mais aqui para se expressar ou até mesmo se defender. Para quem ama a música (sertaneja ou nã0), como eu, não tem vida pessoal que se compare à herança musical de um artista. A pessoa, infelizmente, se vai, mas sua obra fica, e reverbera para sempre nos corações que tocou um dia.

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, escritora, professora universitária, fã de Marília Mendonça e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.