Por que os programas sertanejos sumiram da TV aberta?

Muitos programas sertanejos fizeram sucesso na TV aberta, mas desapareceram da grade de programação das principais emissoras do país

A música sertaneja sempre fez sucesso na televisão brasileira, seja em trilha sonora de grandes novelas, como tema de aberturas de peças da teledramaturgia e até em programas ou quadros especiais. Isso em qualquer emissora nacional. Muitos desses programas sertanejos foram êxitos históricos e jamais serão esquecidos por seus admiradores. Todavia, nos últimos anos, esse tipo de atração desapareceu da grade de programação dos principais canais da TV aberta.

Talvez esse programas estejam longe da TV há tanto tempo que você nem lembra direito dos detalhes do que estamos falando, então antes de começarmos nossa reflexão sobre o que houve, convém lembrar as principais atrações desse tipo. Aliás, já fizemos uma matéria mostrando um pouco desses programas. Um dos mais icônicos foi o “Viola, Minha Viola“, da TV Cultura, que trazia músicas sertanejas raiz e ficou no ar entre 1980 e 2015. Sua apresentadora mais ilustre foi a grande Inezita Barroso.

O SBT investiu bastante em programas desse tipo, como o “Sabadão com Celso Portiolli“, lançado em 2015, mas extinto no ano seguinte. O saudoso Gugu, lá na década de 90, comandava o antológico “Sabadão Sertanejo“, que foi ao ar em horário nobre, entre os anos de 1991 e 2002. Que saudade!

Nem a poderosa Rede Globo escapou de investir no estilo. Nos anos 90, a emissora apostou em “Amigos“, espetáculo que teve Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano e Leandro e Leonardo e até os dias de hoje segue na agenda dos artistas. Após o sucesso, a emissora criou o “Amigos e Amigos“,  que recebeu ícones da música sertaneja e de outros nichos musicais.

Não se pode esquecer do excepcional “Som Brasil“, também da Globo, que teve nada menos que 30 temporadas, entre 1981 e 2013. Os apresentadores mais lembrados são Rolando Boldrin e o ator Lima Duarte, que estava presente na já histórica cena de Sandy e Júnior pequenininhos, cantando “Maria Chiquinha”.

Mais recentemente, tivemos na Globo o “Bem Sertanejo“, que era, na verdade, um quadro do Fantástico, no comando de Michel Teló, que rodava o país trazendo o depoimento de grandes nomes do sertanejo, como Sérgio Reis, Bruno e Marrone, Daniel, Milionário e José Rico, Chitãozinho e Xororó e Almir Sater. Expoentes da nova geração, como Gusttavo Lima, Luan Santana e Jorge e Mateus também participaram, e o programa fez tanto sucesso que virou um musical de teatro.

Atualmente, a TV Aparecida mantém no ar dois programas sertanejos, o “Terra da Padroeira” e o “Aparecida Sertaneja”, que, apesar de irem muito bem na praça de São Paulo, tem alcance restrito em termos de audiência nacional. O que, então, explicaria o sumiço desse tipo de programa da grade das grandes emissoras de TV?

A primeira questão é que a TV aberta tem perdido força como um todo. Olhares minimamente atentos já viram, por exemplo, a Globo fazendo malabarismos para manter os índices de audiência em níveis aceitáveis, até mesmo das novelas, seu principal produto. Esqueça o número de TVs ligadas do passado, isso não existe mais. A era da internet acabou com o entretenimento como uma vez o conhecemos.

Junto com a era da internet, vieram os serviços de streaming (e a Globo tratou de disponibilizar o seu, aliás). Recentemente vimos a gigante Netflix perder assinantes pela primeira vez desde seu estouro, mas mesmo assim, não se pode negar a força dessas plataformas. Hoje elas são muitas, e a moçada quer assinar quantas conseguir, sem jamais perder a sensação de que em alguma delas há uma grande estreia que não dá conta de acompanhar. Já dizia o imperador romano Júlio César, “dividir para conquistar”!

Não faz muito tempo, artistas e gravadoras sofriam imensamente por causa da pirataria e viram seus lucros despencar. Era preciso mudar. Junto com a internet, vieram também as plataformas de streaming de música, começando pelo YouTube e expandindo para Spotify e afins. Os envolvidos no processo recuperaram, em parte, o controle sobre a divulgação e os lucros disso. A internet permite ao artista, hoje, divulgar seu trabalho de maneira ampla e menos custosa. Frequentar programas de TV com este fim deixa de ser tão interessante.

Os programas sertanejos eram excelentes vitrines para os cantores. Atualmente, para exemplificar, um artista precisa separar pelo menos um dia da sua agenda, deslocar a banda e reorganizar toda a parte logística para ir em um programa desses, que não reverte em grana no bolso. Na verdade, é gasto. Muitos comprometem, inclusive, uma data que poderia ser ocupada por um show, este sim, lucrativo. Não vale mais a pena. Para a emissora, a produção também tem um custo enorme. Se a audiência é alta, os patrocinadores aparecem. Com a audiência em queda, os patrocinadores fogem. No fim das contas, é tudo business. Bufunfa, dimdim.

Além disso, não se pode perder de vista o quanto a internet é dinâmica e o quanto os consumidores de música de qualquer gênero demandam novidades constantes. Não é à toa que os artistas gravam projetos audiovisuais enormes e soltam as faixas em formato de EP, em conta-gotas. Tudo para otimizar a produção de conteúdo e manter a audiência saciada. Com tudo disponível na ponta dos dedos, na tela dos smartphones, na hora que eu quiser, por que eu vou parar a vida pra assistir a um programa com hora marcada na TV? A galera mais antiga até faz isso ainda. Mas aí de novo voltamos ao argumento de que não vale a pena o custo.

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No fim das contas, eu lamento. Muita música de alta qualidade rolou nesses programas sertanejos. Quem sabe alguma plataforma de streaming se aventure a reviver o formato, talvez fazer uma websérie. Documentários sobre sertanejos emblemáticos, como Zezé Di Camargo e Luciano e Chitãozinho e Xororó já estão às portas. Pra velha guarda, como eu, resta ficar com as reprises. Aliás, querendo ver de novo, acesse a plataforma de streaming de vídeos pioneira. Lá, provavelmente, você encontra tudo e mata a saudade.