Roberta Miranda e a enorme força da mulher no sertanejo

Roberta Miranda, que brilha na trilha sonora do remake de Pantanal, abriu caminho para muitas cantoras e segue mostrando a força da mulher no sertanejo

Quem acompanha a coluna sabe que não é a primeira vez que eu escolho dedicar esse espaço às mulheres do sertanejo, e hoje não será diferente. Semana passada, contei pra vocês que estava bem ansiosa para assistir ao remake da novela Pantanal, que começou na última segunda-feira (28/03). Meia dúzia de capítulos depois, digo que um dos grandes acertos da produção está na trilha sonora, ao escolher mulheres para interpretar canções já consagradas da música brasileira, dentre elas a magnífica Roberta Miranda.

O Movimento Country já te contou os detalhes dessa superprodução da Rede Globo, e esta colunista também já compartilhou que tem memória afetiva da primeira versão da novela. É uma das minhas preferidas dentre todas as já produzidas e, por isso, a expectativa sobre Pantanal era enorme. A primeira semana não me decepcionou, se eu evitar as comparações com a versão original.

Menção honrosa para duas escolhas acertadas da Globo neste remake. A primeira foi trazer Almir Sater de volta à atuação, agora como o homem da chalana (quem não entendeu a referência, leia até o final que você já vai entender). A outra foi o papel dado a Paulo Gorgulho (o José Leôncio jovem da 1ª versão). A sua cena final ao lado de Irandhir Santos é de uma sensibilidade, delicadeza e beleza ímpares. Confesso que me emocionei.

Pantanal foi um sucesso gigantesco no tempo em que a TV aberta reinava soberana, sem internet ou plataformas de streaming para incomodar. Hoje, os tempos são outros, e o grande Silvio de Abreu, antes de deixar a Globo, apostava no remake de Pantanal como uma série da Globoplay, o serviço de streaming da Globo. Ao escolher manter o remake alinhado ao formato original, a emissora deixará de atingir a um público muito mais amplo. Pantanal poderia se tornar produto de exportação e, quiçá, ganhar o mundo. Pois é, Silvio de Abreu tinha razão.

Dito isso, umas das minhas maiores curiosidades sobre o remake de Pantanal estava justamente na trilha sonora. Arrisco dizer que a novela de 1990 tinha uma das melhores trilhas de todos os tempos, se não a melhor entre as novelas. Como superar isso? Acredito que as trilhas sonoras são uma mistura do enquadramento da trama com o tempo atual. Graças ao meu bom Deus, a Globo, pelo menos por enquanto, não caiu na armadilha das “sarradas” e “sentadas” que dominam a música popular hoje. E, maior acerto, incluiu mulheres fortes nessa lista.

A grata surpresa começou com Maria Bethânia cantando a abertura, a mesma canção épica de Marcus Viana e o Sagrado Coração da Terra, agora na segunda estrofe, a mais forte da música. Minha alegria de mulher amante de música só se fez completa, porém, quando soube que a trilha sonora incluía “Chalana” na voz de Roberta Miranda, rainha absoluta da música sertaneja brasileira.

“Chalana” ficou muito conhecida na voz de Almir Sater, na trilha de 1990, mas foi composta em 1943 por Mario Zan e Arlindo Pinto, quando o sanfoneiro esteve naquela região a passeio. Foi regravada diversas vezes, inclusive por Sérgio Reis e pela própria Roberta, que a lançou no belíssimo álbum “Senhora Raiz”, de 2008. Enquanto eu ouvia Chalana na novela esta semana, refletia sobre a importância de Roberta Miranda em todo o contexto sertanejo, que é, talvez, imensurável, considerando que a artista segue ativa e produzindo música boa.

Roberta Miranda, mulher nordestina, artista que começou em um tempo em que mulher ainda precisava ficar em casa cuidando da prole, tempo em que mulher ser artista envergonhava a família. Roberta Miranda, cantora de música sertaneja, segmento historicamente dominado por homens, machista como vários outros desse meu Brasil. Roberta Miranda, pioneira, audaciosa, corajosa e desbravadora. Estou repetindo seu nome várias vezes que é pra você, admirador de música (sertaneja) como eu, jamais esquecer.

Muito falamos recentemente sobre Marília Mendonça, artista gigante, compositora de um talento raro, mulher forte, inovadora. Arrisco dizer que não existiria Marília Mendonça se não tivéssemos Roberta Miranda. Marília talvez não tivesse a mesma aceitação e visibilidade. Roberta abriu a trilha, roçou o terreno, abriu caminho pela mata fechada. Se hoje circulamos em terreno pavimentado, precisamos agradecer, entre outras, a ela.

Roberta Miranda foi convidada a palestrar em Harvard, uma das melhores universidades do mundo. Eu, que venho desse mundo acadêmico, fico embasbacada com a dimensão dessa conquista. O evento acontece na próxima semana, como já te contamos aqui. Roberta Miranda é ícone do empoderamento feminino, precursora do tão falado “feminejo” (embora eu não goste muito desse termo). Roberta Miranda é exemplo de sucesso, da mulher que batalhou e venceu, que lutou pra ser ouvida e conseguiu ser, que marcou não somente a sua geração, mas todo o seu segmento de trabalho.

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Roberta Miranda tem muito a nos ensinar. Os alunos de Harvard já entenderam isso. Por aqui, repeti seu nome completo 14 vezes nesse texto, que é pra você não duvidar nem mais um segundo da importância dela para a história da música sertaneja e para o árduo (e ainda longo) caminho da equidade de gênero. Que orgulho, Roberta Miranda! Você me representa!